Can Infrastructure Become Public Space?

A segunda vida da infraestrutura

As cidades sempre se definiram pelas suas infraestruturas. Os aquedutos tornaram Roma possível. Os canais deram forma a Veneza. Os caminhos de ferro transformaram Londres. As autoestradas aceleraram o crescimento das metrópoles modernas. Durante muito tempo, a infraestrutura foi entendida como a estrutura física que permite o funcionamento da vida urbana. Transporta água, energia, bens, informação e pessoas. É a arquitetura da civilização centrada no ser humano.

No entanto, muitas cidades enfrentam hoje um paradoxo. Enquanto as redes de infraestruturas continuam a expandir-se, o espaço público não acompanha esse crescimento. A urbanização acelerada, a subida do valor dos terrenos e as pressões ambientais deixaram muitas cidades com menos oportunidades de convívio coletivo, de interação cívica e de encontro significativo com a natureza. O espaço público é muitas vezes tratado como um luxo, ao passo que a infraestrutura é considerada uma necessidade. Um recebe atenção cultural; a outra é vista sobretudo como uma questão de engenharia.

Mas e se essa distinção já não fizesse sentido?

E se fosse a própria infraestrutura a tornar-se espaço público?

Esta questão é particularmente pertinente na Tailândia e em toda a Ásia, onde a elevada densidade urbana, as alterações climáticas e a escassez de solo exigem novas formas de pensar a cidade. Em muitas cidades, os territórios públicos mais extensos e contínuos já não são os parques nem as praças. São as pontes, os corredores de transporte, os sistemas de controlo de cheias, as frentes de água, as redes de serviços e os espaços residuais criados pelas infraestruturas. Em vez de construir mais arquitetura dentro da cidade, talvez devêssemos começar por reimaginar a cidade que já existe.

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Quando a infraestrutura se torna mais do que infraestrutura, pode servir de transporte e até de espaço de participação pública. Fotografia © Jenchieh Hung + Kulthida Songkittipakdee / HAS design and research

No atelier de arquitetura tailandês Jenchieh Hung + Kulthida Songkittipakdee / HAS design and research, vemos a infraestrutura não como um objeto acabado, mas como um recurso latente. A infraestrutura possui uma segunda vida para além da sua função técnica. Contém um potencial espacial, ambiental e social que muitas vezes permanece invisível. O desafio não é substituir a infraestrutura, mas revelar as possibilidades que já nela estão inscritas.

Esta perspetiva nasce da própria Banguecoque. Historicamente, Banguecoque desenvolveu-se através da água. A cidade organizava-se em torno de canais que funcionavam simultaneamente como redes de transporte, corredores comerciais, sistemas ecológicos e espaços públicos. A infraestrutura hídrica nunca esteve separada da vida quotidiana. O canal era ao mesmo tempo mercado e espaço público, sistema de mobilidade e infraestrutura social.

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Uma infraestrutura flexível, normalizada e multifuncional pode criar espaços mais significativos para as pessoas e para a sociedade. Imagem © Jenchieh Hung + Kulthida Songkittipakdee / HAS design and research

Um estudo urbano particularmente revelador na Grande Banguecoque é o projeto de investigação Big C Boat Bridge, documentado pelos arquitetos, professores Jenchieh Hung e Kulthida Songkittipakdee. O projeto transformou dois barcos a remos de madeira modificados numa infraestrutura híbrida que funciona simultaneamente como embarcação e como ponte, ligando uma comunidade ribeirinha do canal ao supermercado Big C situado nas proximidades.

A investigação coloca uma questão simples, mas fundamental: Pode a infraestrutura ser mais do que infraestrutura? O projeto é mais do que um meio de transporte e mais do que uma ponte. Demonstra como a infraestrutura pode integrar-se plenamente na vida quotidiana, respondendo às condições ambientais locais e criando, ao mesmo tempo, encontros públicos com significado. Distingue-se pelo uso inovador de materiais de origem local, pela sua capacidade de adaptação às comunidades dos canais e pelo contributo para o reforço da interação social. Em Banguecoque, e em toda a Tailândia, onde os ritmos da vida diária continuam a correr ao longo das vias de água, ilustra como a infraestrutura pode tornar-se um espaço público com sentido sem perder o espírito da vida sobre a água.

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Ao transformar a infraestrutura em espaço de participação pública, este projeto reimagina como os milhões de postes de serviços espalhados pela Tailândia podem tornar-se catalisadores da interação social e da vida urbana. Fotografia © DOF Sky|Ground

Uma abordagem semelhante orientou outro projeto dos arquitetos, professores Jenchieh Hung e Kulthida Songkittipakdee: High Line Bangkok. O projeto nasceu de uma pergunta simples: Pode a infraestrutura urbana existente criar espaço público com sentido? Mais concretamente, poderão os milhões de postes de serviços da Tailândia passar a fazer parte da vida pública quotidiana, em vez de apenas contribuírem para a desordem visual?

O projeto do High Line Bangkok utiliza os postes de serviços existentes como estrutura principal e introduz uma intervenção ligeira, composta por elementos de tecido tailandês reciclável, que transforma tanto as condições ambientais como a perceção pública. Sombra, ventilação, conforto térmico, identidade visual, oportunidades de interação social e amplos espaços de convívio surgem de uma intervenção material mínima. O projeto demonstra que transformar a infraestrutura em espaço público com sentido não exige necessariamente orçamentos excessivos nem grandes construções novas. Por vezes, a arquitetura mais sustentável não passa por construir algo novo, mas por revelar novas possibilidades naquilo que já existe.

Esta transformação da infraestrutura reflete uma mudança mais ampla no pensamento arquitetónico. Durante décadas, a arquitetura e a infraestrutura foram tratadas, em grande medida, como disciplinas separadas. Contudo, as realidades ambientais do século XXI sugerem que o futuro do espaço público dependerá menos da produção de formas novas e mais da transformação das infraestruturas que já existem nas nossas cidades.

 

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O projeto não só transforma a infraestrutura em espaço público, como também torna a cidade mais acolhedora, mais convidativa e mais estimulante para a vida do dia a dia. Fotografia © Jenchieh Hung + Kulthida Songkittipakdee / HAS design and research

Esta mudança é particularmente importante num momento em que as cidades asiáticas enfrentam uma densidade urbana crescente, as alterações climáticas e a falta de espaços públicos de convívio. O desenho do futuro terá de ser adaptável, resiliente e multifuncional. Deve responder aos desafios ambientais, reduzir o impacto ecológico, apoiar a biodiversidade, incentivar a interação social e fortalecer a vida cívica. A infraestrutura já não deve ser entendida como um mero sistema técnico ao serviço da cidade; deve tornar-se um participante ativo da vida urbana.

Em última análise, a questão não é se a infraestrutura pode tornar-se espaço público. A questão é se arquitetos, planeadores e cidadãos estão preparados para reconhecer o potencial público que a infraestrutura sempre conteve. Se começarmos a ver a infraestrutura não apenas como engenharia, mas também como arquitetura, paisagem e espaço cívico, a sua segunda vida poderá tornar-se uma das mais importantes oportunidades urbanas do século XXI.

Imagem principal: A infraestrutura pode ser reimaginada como espaço público, tornando-se um lugar de sombra, de convívio e de interação social que redefine o comportamento humano. Fotografia © DOF Sky|Ground